quarta-feira, fevereiro 21, 2007

José Régio - Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Eu voto SIM

"Concorda com a despenalização do aborto até às 10 semanas de gravidez, se realizado em estabelecimento de saúde autorizado?"

Esta é a pergunta à qual teremos de responder e como tal é a esta pergunta, exclusivamente a esta, que respondo um inequívoco sim.
Já muito sem dito, falado e discutido na imprensa, na radio, na televisão e na blogosfera. Junto agora, por este meio, a minha voz àqueles que têm defendido o sim.

E porquê o sim? Será que eu acho que uma mulher deve abortar? Será que eu não prezo o direito à vida? Não pelo contrário! Eu, na minha visão das coisas, acho que nunca se deveria abortar (só a mãe do Alberto João... mas isso são outras conversas!): de facto acabar com um feto, um embrião, um grupo de células humanas vivas que seja é algo que não me agrada.

PORÉM, não é essa a questão em causa. A questão que se levanta, primeiramente, e há que compreender isto bem, é uma questão jurídica: será que devemos continuar a condenar as mulheres que abortam um embrião com idade até 10 semanas? Eu acho que não, que não devemos continuar a condená-las. E acho-o por 2 ordens de razões.

Primeiro

1 em cada 7 mulheres já fizeram um aborto. São números verdadeiros e, como é bom de ver, são números elevadíssimos. Mais: a maioria destas mulheres que já fez um aborto fê-lo em condições que podemos designar, simplisticamente, de "condições de vão de escada", sem qualquer tipo de segurança ao nível da saúde, enfrentando, portanto, sérios riscos, risco de vida inclusivamente! Daqui se conclui que este número elevadíssimo de mulheres não só está disposta a fazer um aborto, como também está desesperada ao ponto de DAR A VIDA para fazer esse aborto. Repito: a mulher que faz um aborto está disposta a DAR A SUA VIDA para o fazer. De tal modo que não há nada que alguém possa fazer para a travar. Não há nada que consiga travar os nossos objectivos quando estamos dispostos a arriscar a vida por eles. Assim, quer eu queira quer não, quer eu compreenda as suas razões, quer eu não compreenda ela irá fazer o aborto. Ora, nesse caso, eu acho que esta mulher deve fazer o aborto num vão de escada ou num estabelecimento autorizado com condições de saúde pública? Bem, nesse caso, eu acho, sem dúvida, que ela o deve fazer num estabelecimento autorizado com condições de saúde pública.

Segundo

Esta questão é uma questão puramente jurídica. E a lei não é uma causa da sociedade, mas sim um produto, uma consequência, um efeito da sociedade, isto é, a lei reflecte a sociedade. Ora, o que é que acontece na sociedade? Acontece isto: em primeiro lugar (e o número elevadíssimo de mulheres que praticaram aborto di-lo) há uma certa divisão nas consciências de cada um, ou seja, há muitos que não concordam com o aborto e há outros tantos que concordam. Pois bem, uma alteração da lei no sentido da despenalização não impõe nada àqueles que não concordam com o aborto, o modo de lidar com o problema seria deixado à consciência de cada um: aqueles que querem praticá-lo pratiquem-no, aqueles que não querem não o pratiquem. Por outro lado, e relembrando mais uma vez que a lei deve ser um reflexo da sociedade, repare-se noutra situação: o que acontce àquelas que fazem aborto? Quando vão parar ao hospital com complicações relativas a um aborto, quando não morrem, ninguém as denuncia! Os médicos calam-se, as enfermeiras calam-se, os polícias de serviço no hospital olham para outro lado e, quando se dá o caso de as mulheres irem, efectivamente, a tribunal o juiz acaba por nunca as condenar a pena de prisão, ou seja, fecha também ele os olhos! Que nome é que isto tem? HIPOCRISIA: as mulheres podem realizar o aborto? Não! Mas o que é que lhes acontece se o fizerem? Nada! Ah, então podem fazer o aborto? Podem mas em vãos de escada! (Onde é que eu já ouvi isto...?) Isto assim não faz sentido.

Quod scrpsi, scripsi

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Assunto: Aborto e Boas Festas

Escrevo, primeiramente, para informar que brevemente publicarei algumas opiniões acerca do Aborto, lembrando que, sobretudo, o que interessa é que se discuta de forma aberta e tolerante este tópico.

Para já fiquem com o site www.euvotosim.org o qual, a meu ver, pode ser interessante tanto para os partidários do não como para os do sim.

Escrevo também para desejar Boas Festas ao vastíssimo grupo de pessoas que lêem o Apetece-me Comer Espinafres. A todos, portanto, um optimo Natal e um feliz Ano Novo. Que o melhor de 2006 seja o pior de 2007!

domingo, dezembro 10, 2006

Anagramas

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.
Não.Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

Texto escrito antes do exame de Código da Estrada e que eu resolvi publicar vá-se lá saber porquê

E escrevi eu assim:

«Ele há cenas na vida de um gajo que irritam com'á merda. Uma delas é chegar 45 minutos adiantado ao centro de exames de Código. Especialmente depois de ser ter cometido o mesmo erro na vez anterior... aquela em que se chumbou.

A ansiedade de quem precisa de provar a si próprio que consegue passar numa espécie de exame de 4ª classe e o sentimento de responsabilidade de quem já gastou algumas centenas de euros do bolso dos papás misturam-se e levam ao "não posso falhar desta vez". Ora isto está a irritar-me de uma maneira que se me aptece dizer (escrever) qualquer coisa do género: "Eu quero é que esta merda vá toda p'ó caralho que a foda, foda-se". O que até pode ser uma frase poética, se observada de determinado prisma.

Como se não bastasse, na sala de espera está ligada uma TV. Como se não bastasse, ela tem o som num nível que não permite concentrar-me para fazer algumas revisões de última hora. Como se não bastasse, há bocado estava a dar a Floribella. Como se não bastasse, agora começou o programa da Fátima Lopes. Como se não bastasse, a Maya está lá. Agora, pergunto-me eu: será que a gaja se vai pôr para ali a ganir o meu horóscopo? É que se ela diz que o meu horóscopo para hoje é mau, estou lixado! Porque isso vai começar a funcionar na minha cabeça, a ansiedade vai aumentar e aí é que não consigo mesmo passar o exame.
Portanto, o dia começa bem! Tenho sono, estou ansioso e estou irritado. Só me falta chumbar no exame. Credo! Que o diabo seja cego, surdo e mudo!»

E acrescento agora: passei no exame!

Há coisas fantásticas, não há?

Este post é um pedido de desculpa a todos os leitores assíduos deste blog.

Mãe, pai, desculpem! Desculpem, pois há muito tempo que não actualizava o Apetece-me Comer Espinafres. De facto esta referência da Blogosfera não pode ficar assim tanto tempo às escuras.

Ficam pois o pedido de perdão e a promessa de uma "Postura" mais regular.

P.S. - Vão a www.cantaMebocaina.com, vejam e votem no vídeo "irmandade". É difícil encontrarem um vídeo mais estúpido que este! Há coisas fantásticas, não há?

domingo, novembro 26, 2006

VideoClip MAU - Prick (I am)

Não tenho tido muito tempo para escrever no Blog. As minhas desculpas. Para já fiquem com este clip musical. No mínimo original. Quem é que nunca se sentiu assim?

sexta-feira, novembro 03, 2006

Ele há coisas lixadas (II)

É de sublinhar o sangue quente do jornalista!

sábado, outubro 28, 2006

Ele há coisas lixadas

É de sublinhar o sangue frio da jornalista.